Existe um contingente que cresce a cada dia formado por pessoas que decidiram morar só e cada qual com seu argumento transformou essa opção em estilo de vida. Aproximadamente 4 milhões de brasileiros decidiram morar sozinhos. Na verdade viver só tornou-se uma tendência mundial e em geral são pessoas independentes que se instalaram em lares confortáveis onde muitas vezes revelam uma autosuficiência operacional e emocional desconcertantes para quem tenta se aproximar, afirmando não gostarem de “problemas”, que é “ótimo viver sozinho e não precisar dar satisfação à ninguém”. Possuem prontamente uma grande lista de vantagens em se ESTAR sozinho em casa. A maioria de ordem prática tais como assistir ao que desejam na televisão, organizar e bagunçar a casa sem ouvir reclamação e a lista continua bastante longa com poucas variações. Mais adiante se começa a perceber um tom um pouco mais triste e preocupante frente à solidão pela ameaça em haver optado por viver só e esse fato tornar-se uma sentença para toda a vida.
SER sozinho é diferente. Há um sentimento angustiante escondido e permanente. Afinal confrontar-se com o próprio silêncio não é muito fácil. Em perceber que o telefone não toca. Ou a possibilidade de escorregar no chuveiro e bater com a cabeça. E a pior de todas. E se eu morrer sozinho??? Para morrer não é necessário um parceiro ao lado, mas perceber a falta de reconhecimento de alguém em sentir a nossa falta traz um sentimento de desvalia difícil de driblar. É o momento em que a auto estima é abalada à elevados níveis.
“...o fato de não ser amado reduz os sentimentos de auto estima, enquanto que o de ser amado os aumenta. ... uma pessoa apaixonada é humilde. Um indivíduo que ama priva-se, por assim dizer, de uma parte de seu narcisismo, que só pode ser substituída pelo amor de outra pessoa por ele. Sob todos esses aspectos, a auto estima parece ficar relacionada com o elemento narcisista do amor.” (Freud, Sobre o Narcisismo, 1914)
Portanto dependemos do outro para nos reconhecermos como indivíduos e nos sentirmos amados. A ausência de interesse em não dividir a vida ou a casa e o excesso de apego material promovem um distanciamento dificultando as relações. Algum sentimento de pesar em datas importantes no calendário e um sentimento de fracasso em ver os amigos do mesmo círculo de amizades constituindo família fazem com que em muitos casos a solidão esteja além de uma escolha pessoal. Pode atrapalhar a vida e cada vez mais dificultar as relações.
Talvez eu devesse explicar de antemão o que se trata aqui. Um email recebido de uma mulher de 32 anos falando sobre suas certezas e, segundo ela, muitas dúvidas acerca de relacionamentos e sexualidade. O nome é fictício e reproduzirei algumas partes do email que me inspirou escrever esse conto.
Joyce, a questão consultada foi enviada para sua caixa postal. Um abraço.
O email:"Vivi minhas primeiras atrações e desejos na época da adolescência...sonhava com o príncipe...mas me sentia atraída por aqueles que possuíam um aspecto feminino...ou algum traço, jeito...de sacudir os cabelos que me lembrasse uma mulher. Minha primeira experiência sexual com um homem foi um desastre...conheci uma mulher mais velha...me fez a mais linda declaração de amor...debutei em meus amores homossexuais..." O conto:"Meu nome é Joyce. Tenho 32 anos, vivo nessa eterna condição limítrofe e pareço uma ninfa de mármore em um divisor de águas. Assim...Vivi meus primeiros desejos adolescentes, incandescentes, como toda jovem de minha idade. Sonhava também com o príncipe encantado. Sentia-me, portanto, agitada e muito atraída pelos meninos. Mas percebia que aqueles que me atraíam, tinham algo de feminino, um traço, um sorriso, o jeito de sacudir a cabeça e jogar o cabelo para trás. E essa era a parte que eu mais gostava. A dúvida em saber quem de fato estava ali. Ele ou ela. Menino ou menina.Minha desastrosa primeira experiência sexual foi com um homem bem mais velho. Achei que passaria por esse ritual iniciático e seguiria com a minha vida sem incômodos buscando minha identidade sexual. O outro lado da minha moeda. Terrível. Sem comentários.Mas aos 18 anos uma mulher fez a mais linda declaração de amor que eu havia recebido até aquele momento. Malditas palavras. Ela era diferente. Diferente de mim, de tudo. Sofisticada, tinha um ar de superioridade, algo blasée que escravizava todos nesse olhar. E em meio à uma música hipnótica e círculos de fumaça ela me diria "I'm at heart a gentleman", como Marlene Dietrich. Ali foi o início de meus amores homossexuais.
Hoje entre idas e (bem) vindas e depois de uma ruptura às vésperas do dia dos namorados (e das namoradas!) faço o balanço da minha vida e constato com certo temor que minha identidade é dissociada entre uma parte feminina e outra masculina. Parece que a minha crise de meia idade é precoce. Sim, sim...Tenho ido à um psicanalista. Indicaram um tal de Monsieur Lacan (como é mesmo o primeiro nome dele?) Meu tempo sempre esgota. E monsieur me encerra dizendo que a imagem é engravidada na condição de substituta, digamos, de suplência imaginária do Outro inacessível. Mon Dieu, acho que vou cair... Encontrar a minha identidade sexual pode ser um longo e difícil caminho. Desejo de todo o coração reconciliar polaridades, permiti-las viver em harmonia e, enfim, começar a fazer minhas verdadeiras escolhas. Enquanto isso vou vivendo e então resolvi escrever esse email poisvivo nessa eterna condição limítrofe. Pareço uma ninfa..."
Sempre achei que o maior medo do ser humano fosse sentir medo. Mais uma vez irei comentar sobre ele, o temido. Por mais que se tente entender de forma teórica o medo é uma experiência variável e ao mesmo tempo singular. Mas para suprir tanta curiosidade afirma-se que o ser humano possui 7 grandes medos. Fazendo uso disso o leitor identifica-se com um dos modos e consegue aquele sentimento tranqüilizador de “outras pessoas sofrem do mesmo que eu”. Isso funciona somente como informativo, pois o medo que acomete cada um tem origem em algo que diz respeito à sua história e mesmo que seja deixado de lado por algum tempo, irá escapar ao controle consciente para dar um novo sinal impossibilitando a pessoa em outro momento de sua vida.
Os sete grandes medos mais comentados são: * medo de ficar/ser pobre * medo de ser criticado * medo de contrair alguma doença * medo de perder o amor de alguém * medo de envelhecer * medo da perda da liberdade * e o maior de todos, o medo da morte. Os seis primeiros apontam para o último pois tem em comum a mesma sensação de aniquilamento, mortífera. A atenção sobre cada um de forma independente não é relevante, pois o medo pode ser algo transitório aparecendo em um momento específico que se esteja atravessando com a possibilidade de deslocamento de um tipo de medo para outro. O importante a ser destacado é que cada pessoa tem as suas questões a nível inconsciente fazendo com que o medo surja como desencadeador de um processo individual já que não existe uma relação causa/efeito evidente que sirva como padrão. Como por exemplo o fato de ter medo de elevador não significa que todos os que estiveram presos dentro de um sentirão medo a partir desse episódio. Da mesma forma que nem todos os que tem medo de elevador já estiveram presos como também não será por esse motivo que se prefira subir ou descer de escada. Se fosse assim qual a explicação para o medo de insetos?
Diante da avalanche de (des) informações da mídia vive-se sob uma constante ameaça podendo gerar desde um simples receio em executar uma tarefa ou sair de casa até uma fobia grave incapacitante. Curar um sintoma não significa curar a patologia em sua origem. O medo é um sintoma e esse modo de expressão aponta para algo desordenado em seus processos psíquicos. A angústia traz impedimentos, depressões, pânicos, anorexias... O medo é a ponta do iceberg e a verdade submersa depende de uma investigação para se viver sem tantas barreiras.
“...fiquei impressionado. O casal tem uma filha de 6 anos e vive uma relação amorosa com outro casal... o pior é que encontram-se inclusive na casa onde vivem com a menina. E ainda perguntam à pobre da criança se ela se ‘incomoda’ com a situação e a menina diz que não. Pode uma coisa dessas? Você acha que isso pode ter alguma conseqüência para a criança?”
Vivemos na era em que tudo é possível, o prazer é ilimitado e diante da própria angústia o sujeito determina que tem o direito de fazer tudo o que lhe convém pois, paradoxal mesmo, ele não sabe o que fazer com seu mal estar. Obviamente ninguém deve julgar a vida sexual alheia. Acredito que um acordo entre adultos deve ser mantido, pois cada um é absolutamente livre para assumir sua sexualidade e não dar satisfação à quem quer que seja. Como psicóloga posso dizer que a menina é também parceira no suingue. Esse excessivo entrosamento/conhecimento sexual dentro de casa a subordina na participação e conhecimento dos sócios da relação como também dos horários das práticas sexuais de sua mãe e seu pai.
Uma criança de 6 anos não possui suficiente conhecimento sexual para um questionamento dessa ordem. Ela fantasia algo a respeito do que acontece no quarto dos pais e dessa maneira as coisas deveriam ser mantidas. Algum tipo de culpa ou remorso deve surgir naquele que pergunta à filha se ela se ‘incomoda’. Na verdade ela não possui maturidade para dar uma resposta. Mas a nível inconsciente ela já estáincomodadapela invasão, porém ainda não consegue definir o que a acomete.
A criança sempre ‘assiste’ à vida sexual dos pai mesmo que na fantasia. Assistir no sentido de que em seus processos psíquicos muito já se formou e somente mais tarde ela poderá de alguma maneira expressar em sua própria vida o que aconteceu. A construção da sexualidade de cada um vem do exterior, do meio em que vive. E ela poderá aderir à práticas sexuais mais liberadas sem, talvez, deixá-la com algum tipo de inibição ou culpa.
Algumas pessoas adorariam vencer o ciúme. Sei de uma pessoa que sofre a cada vez que o celular do namorado toca. E de vez em quando, na ausência dele, ela checava as ligações feitas e recebidas até o dia em que foi flagrada. A partir daí ele vive apagando os números.
- Porque você faz isso? Ele já te traiu alguma vez?
- Nunca.
O ciúme é uma terrível paixão da alma e coloca aquele que sofre em posição de passividade. O que é processado psiquicamente naquele que sofre? Ressentimento de relações passadas? Que tipo de casal os pais formavam? Um dos pais foi infiel? E o outro? Reagia pela constatação de uma traição ou por uma fantasia?
O ciúme é um sentimento arcaico. Retorna ao terror infantil em ser abandonado por um dos pais. Na vida adulta o ciúme assinala o medo de perder algo que irá abalar a integridade psíquica fazendo com que a pessoa tenha sempre a necessidade de uma segurança ou certeza nas relações. O ciúme aparece como sintoma de um acontecimento não assimilado do período da infância. Pode ser a infidelidade de um dos pais. Sobretudo se a criança foi testemunha de uma traição ou observadora da dor de um dos pais. O nascimento de um irmão pode também desencadear um processo doloroso de desapego.
Algumas vezes o ciúme também resulta de um desejo pessoal de ser infiel que é então projetado sobre o outro. Se o ciumento possuir uma conduta habitualmente infiel nas relações, talvez tema que o parceiro aja como ele mesmo um dia agiu. Em todo caso o ciúme poderá aparecer como uma autopunição que a pessoa se inflige.
O ciumento consegue amar de verdade. Sua questão aponta para o medo inconsciente de uma perda, pois amor nesse caso rima com abandono. É comum na infância perder alguém que lhe é caro. Alguém que desapareceu radicalmente sem qualquer explicação.
Ciúme gera medo. Medo de que aquela pessoa desapareça. Medo de parar de existir quando se está longe. Medo de que não volte mais. Analisar a própria angústia parece ser uma boa solução para ultrapassar esse tipo de problema.
Você pode ter errado, não faz mal. Isso não configura um problema. Talvez isso faça com que você consiga olhar a vida de uma maneira diferente.
No desespero do erro muitas vezes não é percebida uma possibilidade futura de acerto. Parece que só encontramos valor em nós mesmos quando fazemos algo com competência, sucesso e reconhecimento. No entanto a vida presenteia todos com um permanente aprendizado. E então paramos de nos castigar por causa do erro e vislumbramos a próxima vez, uma nova possibilidade. Transformando qualquer aspecto da vida.
"Nunca perdemos nada ao aprender; sempre ganhamos alguma coisa. A razão pela qual eu sei tanto é ter cometido tantos erros."
Buckminster Fuller, matemático e filósofo que nunca se formou mas recebeu 46 doutorados honorários.
Como sempre faço no início de cada mês, paguei a secretária do consultório e fui retribuída com um grande sorriso e a seguinte afirmação: “Ôba, lá vem o fassmirrí”. Perguntei que idioma era aquele e bem devagar ela me diz “esse é o faz-me rir” explicando sem hipocrisia e com muita naturalidade que o dinheiro a deixava muito feliz.
Depois encontrei com um conhecido que joga na mega sena há muitos anos e quando já estava acumulada na casa dos 20 milhões, fiz referência ao prêmio e ele me disse: “Nem quero ganhar isso tudo sozinho”. Intrigada perguntei o porque em não querer toda aquela quantia já que ele jogava há tantos anos e, portanto, nutria o desejo de ficar rico. Ele me responde: “Ah, sei lá. Não sei como seria. É muito dinheiro, não quero tudo isso, não”, revelando uma imprecisão a respeito do que sentiria ou se tornaria caso recebesse um prêmio vinculado à responsabilidade de algo desejado por milhões de pessoas.
Apesar das dificuldades materiais em que vivem muitas pessoas não conseguem se libertar de registros que determinam suas ações. Ensinamentos na infância que ecoam por toda a existência e que limitam o cotidiano transformando a vida em uma sucessão de acontecimentos repetitivos apesar do desejo que algo diferente (e mágico!) aconteça.
Trocando em miúdos, querer uma vida com dinheiro, de forma criativa, trabalhando no que se gosta, “é para os outros”.
Por pelo menos uma vez todos já ouviram algum desses aforismos:
* O dinheiro é a raiz de todo o mal.
* Rico nesse país, só roubando...
* Guarde para os dias difíceis.
* Rico não tem coração (sentimento, bondade, compaixão)
* Dinheiro não nasce em árvore
* Você acha que sou feito de dinheiro?
* Tenho cara de banco para você me pedir dinheiro todo dia? Eu mesma ouvi algumas dessas na minha infância e as que me recordo são “todo rico é ladrão” e a famosa “não tenho um centavo”.
O dinheiro é um símbolo de troca. Trocamos nosso trabalho (conhecimento, mão de obra, força física) por dinheiro. E esse dinheiro será trocado por algum bem de consumo ou de bem estar. Simples assim. Na maioria das vezes nem chegamos à tocá-lo. Ele aparece na tela do caixa eletrônico ou do computador e temos a grata satisfação de que algo que fizemos nos rendeu frutos e proporcionará algo que desejamos.
O dinheiro nem existe. O dinheiro é virtual. A grande questão do dinheiro é que sobre ele é colocada uma enorme quantidade de símbolos por conta do resultado de tudo o que vivemos e ouvimos na infância transformando, o que era para ser um meio, em símbolo. Símbolo de poder, beleza, sucesso, felicidade. Mas também de corrupção, ganância, desvalia e sujeira. Pessoas que gostam de (ganhar) dinheiro têm receio de que os outros o considerem desprovido de algum valor, sensibilidade ou amor revelando um senso de culpa ligado à esse desejo. Somente se libertando desse condicionamento do passado, saindo da condição de vítima é possível dar o correto valorao dinheiro.
Esse escrúpulo em torno do dinheiro é parte da condição humana e não há nada de novo nisso. Em 1913 Freud já afirmava que “as questões de dinheiro são tratadas pelas pessoas civilizadas da mesma maneira que as questões sexuais – com a mesma incoerência, pudor de hipocrisia”.
Hoje li um artigo que afirmava ser prejudicial para as crianças a permanência com os avós enquanto os pais estão no trabalho. Explicando. Os pequenos que ao invés de irem para a creche ou escolinha, ficavam em casa com os avós. Esse convívio excessivo revelou ser prejudicial para as crianças que apresentaram dificuldades na linguagem ou problemas adaptativos quando alcançavam a idade de três anos. Os que ficavam aos cuidados da creche, escola ou babá especializada apresentaram um desenvolvimento elevado.
Vamos por partes. É claro que o amor dos avós é na maioria das vezes inigualável. Mas em função das limitações que todos enfrentamos à medida que amadurecemos, seria um equívoco acreditar que a convivência com eles devesse proporcionar experiências educacionais e sociais às quais a criança realmente necessita. Isso é função de pais e educadores.
A abordagem do texto foi feita com crianças de todos os níveis sociais. Condição financeira, cultural, possibilidades, acessos facilitados ou eventuais dificuldades não foram importantes na relação entre avós e netos nessa pesquisa. O estudo conclui que os avós merecem apoio ao invés de críticas.
Ter um filho diz respeito ao desejo de alguém em relação à maternidade ou paternidade. Esse desejo vai além do fator biológico e implica muito em comprometimento, formação de novos vínculos, abrir mão de suas prioridades e de todo um mundinho próprio já organizado. Para incluir alguém na própria vida é necessário ter que abdicar de algumas coisas caso contrário vive-se sozinho. O que dirá com a entrada de alguém que irá depender em sua totalidade? Que se encontra em desamparo? Portanto há de se ter além do desejo, algum planejamento e estar preparado (a) para novas responsabilidades e a certeza da presença permanente de alguém irá depender MUITO de todo tipo de cuidados.
Os novos vínculos e alianças que se formam a partir de um filho não implica em delegar a responsabilidade dos cuidados à alguém. O outro tem o direito de não querer essa responsabilidade. Muitas mulheres desejam um filho e quando nasce “a minha mãe (a avó) cuida”.
Avós devem exercer seus papéis e sem querer criar categorias para as funções familiares, pois isso na verdade já existe, eles têm pleno poder sobre suas tarefas. E que tarefas são essas? De serem simplesmente... AVÓS.
Os netos dão uma segunda oportunidade para que sejam aprendidas algumas coisas que escaparam na vez em que surgiram durante a experiência com seus próprios filhos. A presença dos netos também faz com que a passagem do tempo permita aos mais velhos ver com mais felicidade a realidade do segmento de sua vida.
Há muitas vantagens em ser avô ou avó e talvez a mais importante a ser destacada é que eles TÊM TEMPO. Isso soa paradoxal, é verdade. Mas eles têm tempo para os netos. Pois o tempo que falta aos pais, os avós têm. E assim eles exercem seu papel de transmissores de princípios revelando companheirismo, amizade, amor. Mesmo quando os netos estejam passando por dificuldades ou solidão. Mesmo quando são incompreendidos.
Os avós acreditam nos netos de uma forma bastante natural. Os netos olham para eles acreditando que ali existe uma alma, uma existência sem idade no coração, alguém eternamente jovem e imortal. Eles ouvem o que os netos têm a dizer e principalmente o que eles não querem dizer, sem a intenção de administrar a situação como normalmente faria uma mãe ou um pai. Os avós permitem que os netos consigam alcançar seus objetivos oferecendo-se como aliados dando incentivo e inspiração. Em troca sentem o coração rejuvenescido e descobrem a fonte da eterna juventude.
Os pais têm a oportunidade e o dever de manter os filhos em segurança e algumas vezes até utilizam alguns recursos ameaçadores para manter a integridade física dos filhos. Por pelo menos 18 anos mãe ou pai organiza, grita, reclama porque ele entrou de novo em recuperação, impõe maneiras, bons hábitos, arrasta para o médico, o dentista ou fica até mais tarde para explicar a matéria às vésperas da prova ou para esperar que chegue de uma festa.
A imagem dos avós é uma boa marca que se deve levar de lembrança por toda a nossa existência. Uma vez li um livro em que a protagonista dizia a respeito de uma de suas avós e que pode ser estendido aos avôs também. Ela dizia: “A imagem mais marcante que tenho de minha avó foi o dia em que ela juntou suas tintas e telas em branco e nos levou ao Jardim Botânico. Enquanto eu e meu irmão explorássemos os jardins eventualmente eu a olhava de uma pequena distância e lá estava ela. Com porte de rainha diante do cavalete, a luz dourada do sol iluminando seu rosto completamente em transe enquanto pintava. Como eu a amava naquele momento! E essa lição sem palavras cristalizou esse momento de emoção e a sensação permaneceu em mim pelas seis décadas seguintes da minha vida.”
Independente da maneira de se colocar frente a vida seja com fé na religião, na ciência, nos pais ou no amor da sua vida, por algum momento talvez tenha sucumbido a um acontecimento que o fez vacilar nas próprias crenças. Desilusão amorosa, desemprego, morte de alguém querido. De vez em quando a vida nos coloca diante de algumas incertezas e eventuais fracassos.
Não passa despercebida uma pessoa que afirma que nada dá certo, tudo vai mal e culpa desde o governo até o vendedor da esquina por seus insucessos e tristezas. Aquela velha história do copo d’água meio cheio ou meio vazio.
O pessimista cria um modo de vida defensivo se protegendo dos perigos do mundo. Obviamente ninguém nasce dessa forma e a origem desse funcionamento diz respeito a experiências prematuras, desapontamentos e frustrações na infância. Ninguém irá obedecer a partir de agora todos os desejos de uma criança na tentativa de manter a sua integridade psíquica. Não se supõe que a frustração seja algo nocivo. Ao contrário. Ela opera na condição psíquica de cada um criando condições para enfrentar o mundo.
Amadurecer é criar novas possibilidades quando não se consegue algo conforme idealizado e principalmente sustentar aquela situação transitória indesejada sem cair em desespero.
É a maneira como reagimos a determinadas situações e a capacidade de criar saídas alternativas que revelam o nosso grau de amadurecimento. Reclamar e chorar sobre o que aconteceu não serve para muita coisa.
Portanto as experiências da vida e a maneira como as coisas foram negadas na infância ou na juventude constituirão o mundo interno de cada um. Se foram deixados traumas psíquicos, como resultado passa-se a vida sendo pessimista e tendo FÉ de que as coisas NÃO irão dar certo. Fé? Claro. Todo mundo tem fé. Nesse caso ele acredita que nada irá dar certo mesmo. Essa crença irracional protege a pessoa de uma desilusão, um sofrimento. E quando um desapontamento surge, como eventualmente acontece a qualquer um, serve para reforçar a filosofia negativa do pessimista.
O pessimista deve mudar o cenário da vida, como ele se coloca frente a situações e principalmente como chegou a essas crenças a respeito de si e do mundo para tentar aliviar a carga pesada que vem trazendo de seu passado.