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15 de março de 2010

Traída


“Tenho 42 anos, duas filhas do primeiro casamento e sou independente financeiramente. Acho que sou boa na cama, gosto de me arrumar e de cuidar de mim. Em 2006 conheci um cara pela internet e nos apaixonamos. Em 2008 comprei uma casa e resolvemos morar juntos apesar de minhas filhas nunca terem aprovado. Ele havia sido casado 2 vezes. A segunda ex mulher faleceu e a filha deles de 9 anos veio morar conosco. Com a minha permissão, claro. Antes disso, o filho dele do 1º casamento já morava conosco. Agora estou atravessando uma barra. Em agosto do ano passado ele me emprestou o celular e descobri a mensagem de uma fulana tratando-o de amor. Descobri que ela é casada e saía com ele de vez em quando para o motel. Ele sempre negou... E ainda tenta dizer que eu preciso me tratar porque é TPM. Ele nunca dormiu fora de casa. Descobri que eles se encontravam no início da manhã, na hora do almoço ou no meio da tarde. Sabe o que eu não entendo? Todos os dias fazemos amor e ele diz que nunca ninguém fez como eu, que me ama...Quero saber qual a necessidade desse homem em ter outra mulher se todos os dias fazemos amor, fazemos de tudo na cama, tudo o que queremos, sem pudor, sem reserva. Não consigo entender. Agora descobri que ele tem uma rede social de mulheres na internet. A maioria casada ou com algum compromisso. Ele é doente? Não consigo entender como uma pessoa à noite faz amor e na manhã do dia seguinte está à caça de uma mulher qualquer, chamando-a para ir ao motel. Gostaria de entender essa situação. Estou muito magoada.”

Homens e mulheres amam de formas diferentes e isso não constitui uma novidade. No entanto, as variantes e os modos de amar muitas vezes são motivo de conflito entre os casais. Pertencer à uma ‘rede de mulheres’ talvez determine o que é ser homem para alguns. E a angustiante necessidade que ele possui se alimenta de mais angústia, pois exige muita cautela em não ser descoberto. Talvez o fato de se relacionar, mesmo que virtualmente, com várias mulheres revele o temor à impotência em um sentido mais amplo além do sexual, e também uma fragilidade e sentimento de desvalorização que o acompanha desde sempre. Suposições em torno de uma questão que pertence à ele. Afinal ele possui profundos motivos inconscientes para agir assim. Mas o que será que move você à determinadas escolhas? Você faz tudo pela relação. Compra uma casa e resolve morar com ele apesar da desaprovação de suas filhas. Não tenha tanta certeza quanto ao suposto controle que você tem da situação, desafiando opiniões ou dando ‘permissão’ para que a filha dele, menor de idade e em desamparo, tenha ido morar com vocês. Se você não tivesse permitido, como teria ficado a relação?

Pode ser que você esteja certa e que ele a venha traindo há algum tempo. Mas pode ser que você também esteja certa e que ele não tenha nada com ninguém além de você. Explico. No seu email você repete a palavra ‘descobri’ algumas vezes. E convenhamos que só descobre quem anda procurando. E o que você vem buscando faz parte de uma fantasia de traição.

Faça um exame em sua vida e em vez de tentar ‘descobrir’ o que ele vem fazendo, procure entender o que influencia você à determinadas escolhas que a fazem agir de forma tão insegura. As relações amorosas na vida adulta se baseiam nas situações primitivas entre pais, irmãos, irmãs e todos os sentimentos e emoções que envolvem essas experiências. As relações adultas contêm, além de reminiscências da experiência infantil, elementos mais recentes de outras relações amorosas. A medida que você entrar em contato com essas informações e descobrir outro lado em você, começará a entender suas reais necessidades e expectativas dentro da relação atual.

12 de fevereiro de 2010

Amigos imaginários




Para quem acredita que os filhos pequenos conversam com “espíritos” e para aqueles que não sabem que esse recurso alivia o sofrimento de muitos.

Uma em cada três crianças nutre temporariamente uma relação existente apenas na fantasia – o que não é motivo para preocupação. O curioso é que também adolescentes e adultos, em especial idosos, usam esse recurso para superar fases difíceis

Vivemos tempos em que conversar com gente que nunca vemos não é nada incomum: perambulamos por chats, blogs e twitter e trocamos informações e segredos com pessoas com quem mantemos relacionamentos virtuais, às vezes bastante íntimos. Mas e quando uma criança “cria” um amigo imaginário – brinca, fala e até mora com ele, como se fosse real? Esse fenômeno, que surge principalmente entre 3 e 7 anos, não é tão raro. Quando pais e educadores percebem a existência desses companheiros invisíveis quase sempre ficam preocupados. Uma mãe escreve em um fórum on-line: “Nosso filho de 5 anos tem falado há três dias de ‘sua amiga Pia’. Ela só existe em sua imaginação, mas parece ser absolutamente real para ele. Ele se comporta como se pudesse vê-la! Nós não tivemos esse tipo de experiência com sua irmã três anos mais velha. A amizade com ‘Pia’ parece fazer bem ao nosso filho, mas nós nos preocupamos mesmo assim. Será que devemos deixá-lo com sua fantasia ou tentar convencê-lo a abandoná-la?”.

Mas os pais podem respirar aliviados, pois todos os estudos sobre esse fenômeno chegam ao mesmo resultado: não há motivo para preocupações! Os amiguinhos imaginários têm sido estudados de forma intensiva há muito tempo, nos últimos 100 anos, mas poucos psicólogos se dedicaram a esse tema. E há um ponto em comum: todos concordam que os amigos imaginários estimulam o desenvolvimento das crianças, podem suprir eventuais lacunas afetivas e ajudam na elaboração de questões psíquicas.

Para os mais novos, o amigo “de mentirinha” é quase sempre um companheiro de brincadeiras que pode estar “presente” também à mesa na hora das refeições, ser chamado pelo nome, mas não raramente acompanha a criança durante todo o dia. Alguns pesquisadores afirmam que praticamente todos nós temos um parceiro imaginário em um determinado estágio do desenvolvimento – porém, ele quase nunca é descoberto pelos adultos e a própria pessoa normalmente não se lembra disso mais tarde.

Os acompanhantes invisíveis são frequentemente crianças da mesma idade de seus criadores – como, por exemplo, Sebastian Nigge, o amigo imaginário de Madita, personagem do livro de mesmo nome, de Astrid Lindgren. Podem ser também animais, magos ou super-heróis. Alguns cabem no bolso e podem ser levados para todo lugar – como o canguru invisível Pantouffle no filme de Hollywood, Chocolate, de 2000, dirigido por Lasse Hallström.

Revista Mente e Cérebro
edição 205 - Fevereiro 2010

Para ler a matéria na íntegra: