12 de junho de 2010

Linhas e Entrelinhas dos Namorados



Amor é uma palavra que todo o mundo usa. Uma palavra às vezes comum, outras vezes mágica. Às vezes pobre de sentido e rica de emoção, banal ou surpreendente, mas especialmente cheia de sombras e luzes. 


Em nosso tempo e lugar a palavra "amor" é, muitas vezes, manchada, mal conjugada ou usada para nomear muitos sentimentos indistintamente. Por exemplo, "eu amo minha mulher, meu cachorro e meu carro.” Ou "eu amo dois homens (ou duas mulheres) ao mesmo tempo.” O amor foi banalizado onde todos os tons do sentimento apaixonado se traduzem por amor. Ama-se antes mesmo da certeza do amor, quando ainda não sabe se ao menos gosta, revelando uma emergência, uma carência, uma necessidade quase visceral em amar. Algo de tentar suprir um vazio interno ou de seguir uma tendência do mercado. “Tenho que ter alguém do meu lado. Não dá para ficar sozinha”.  Afinal para o clima do dia dos namorados, tenta-se de tudo para entrar no fluxo frenético de ter alguém e não sentir solidão. Um amor, qualquer um. Esses amores deslumbrados, felizes, sussurrados de uma noite. Pode ser que as sutilezas do amor prejudiquem o envolvimento verdadeiro, aquele buscado dentro do olhar do outro e tragam a distante lembrança de algo que aconteceu tempos atrás e crie uma resistência em não se vincular. 


Aquela formação infinita do amor, quando termina, traz junto a dor da lembrança dos sussurros e promessas. Os aromas na memória, a nostalgia e tudo o mais pode vir a se transformar em ódio. O doce ódio trazendo de volta o amor prejudicado, hostil, amargo e carregado de ressentimento mantendo seu fogo, agora destrutivo, capaz de tudo para eliminar o outro. “Nunca mais me apaixono! Agora vou usar todos eles!”
Mas quando estamos amando, (ahhh!) quando estamos realmente entorpecidos pelas sensações, recusamos pensar nisso e (ainda bem!) somente temos atenção para canções, poemas ou silêncios carregados de emoções, de entonações diferentes, com olhares, gestos e atenções particulares. Refinamos tudo isso dando de nós o melhor que temos. Emparelhamos tudo com advérbios, adjetivos e superlativos. Temos impulsos de entusiasmo, aumentamos tudo com sonhos e criamos fantasias sem barreiras. E quem disse que há limite no sonho para os que amam?


Tentamos aliviar o fardo pesado da temporária ausência do outro nos divertindo, mas “sem ele(a) não tem graça”. E nos assustamos com a possibilidade dos dias de escassez daquele amor se ele(a) um dia não estiver mais ali. Quem vai me esquentar no próximo inverno? Às vezes sentimos isso nos dias de solidão. E, então, tememos amar de novo com a certeza de que na próxima vez não vamos nos "entregar tanto para não sofrer de novo”.


A palavra amor nem sempre fala de amor. Muitas vezes fala mais de um desejo, de uma criação, de uma nossa invenção, de um jeito que eu queria que ele fosse, de uma necessidade, de uma carência minha, dele ou dela. Fala de um amor que a gente inventa todos os dias. Mas mesmo inventado é isso que nos faz tão felizes na maioria das vezes e, portanto, não podemos deixar de aproveitar a oportunidade para tentar mais uma vez e fazer da maior preciosidade que temos a essência-motor da nossa vida.
Afinal, temos que estar bem vivos para amar! 


Feliz Dia dos Namorados!







3 de junho de 2010

Ela Ganha Mais Que Ele



Outro dia recebi uma mensagem de um leitor que dizia: “O amor não consiste em olhar um para o outro, mas sim em olhar juntos para a mesma direção.” Nesta citação Saint Exupéry nos indica que, para o amor existir, a reciprocidade do casal exige uma adequação necessária. Isso quer dizer que a aceitação do modo do outro e as circunstâncias (mesmo as desfavoráveis) devem ser superadas colocando a cumplicidade acima das dificuldades e que, então juntos, construam algo em comum. O que une um casal e fortalece a relação é a disponibilidade em fazer planos, de preferência, bem ajustados. E se ela ganha mais que ele? E se o planejamento dela inclui um réveillon em Paris enquanto o dele cabe um fim de semana em Lumiar?


Dinheiro esteve sempre associado à poder, cargos, aquisição de imóveis, carros e até pessoas. Sair de casa para ganhar dinheiro foi, durante muito tempo, uma prerrogativa masculina. A mulher ficava em casa cuidando dos filhos, do lar e das coisas dele. Mas um dia a mulher saiu de casa, começou a trabalhar e estudar. Aprimorou conhecimento e agora disputa lado a lado com eles. Todo esse empenho as fez conquistar um importante lugar no mercado de trabalho levando-as a ganhar, muitas vezes, mais do que o companheiro. Com menos disponibilidade elas agora pedem mais atuação em casa na divisão dos encargos, tarefas com os filhos e projetos de vida. E nesse ponto as coisas se complicam. A diferença no status financeiro entre os parceiros pode abalar a estrutura da relação. Por mais moderna que seja a mentalidade de homens e mulheres, essa mudança de paradigma pode afetar o casal.


Durante séculos sempre foi esperada uma determinada atuação do homem. Dinheiro=poder. Poder=potência. Se ele é destituído do dinheiro ou se há uma substancial diferença de dígitos entre ambos pode acontecer de alguns homens se revelarem agressivos ou impotentes sexualmente. Uma diminuição do desejo sexual pode ser entendida como uma forma de revelar que a mulher não é desejável fazendo-a sentir-se insegura e rejeitada.


O que mais frequentemente ocorre é a impossibilidade de grande parte dos homens não conseguir verbalizar, expressar sentimentos e aceitar a superioridade financeira da parceira. Por outro lado, muitas mulheres utilizam esse trunfo como modo de vingança por conta de experiências anteriores fracassadas encontrando, então, uma oportunidade de vingança agindo de forma autoritária e exigindo submissão.


Desigualdade salarial entre os parceiros é assunto delicado. O psicanalista Jeremiaz Ferraz aborda as questões do dinheiro relacionadas à religião e ao sexo em Psicanálise do Dinheiro (Mauad). 


É possível conviver com essa diferença. Aceitar isso revela grande maturidade quando tudo é dividido com coerência e acordo mútuo. A inversão pode ser bem vivenciada com cada um assumindo um lugar diferente do que é reconhecido socialmente. Porém a inversão do papel social pode trazer à tona elementos internos mal resolvidos. O excesso ou a falta do dinheiro revela sempre o que de mais profundo cada um tem dentro de si.







1 de junho de 2010

Loucas Paixões. Ficção e Realidade.

Tenho percorrido na literatura e no cinema os excessos de amor entre homens e mulheres. E o que se vê naquele que desperta o amor? No caso das mulheres, uma aceitação em ser aquela pelo qual o outro satisfaz a fantasia de uma parceira ideal. Ela é capaz de dar tudo ao homem. “Seu corpo, sua alma, seus bens”, como diria Lacan. Mas os homens, à sua maneira, revelam também sua intensidade amorosa. Vejamos em: 


Amor nos Tempos do Cólera, da obra de Gabriel Garcia Marquez, que narra a história de um amor idealizado e buscado incessantemente por mais de cinco décadas. Se essa descrição não surpreende tanto, acrescente-se à isso o fato do personagem, interpretado pelo maravilhoso Javier Bardem, não haver estabelecido um contato mais próximo com sua eleita, exceto por cartas e breves olhares apaixonados na adolescência. O filme mostra o “romantismo” do personagem principal e a busca incansável por uma mulher impedida pelo pai de viver o amor de corpo e alma com esse homem. 


Bem Me Quer Mal Me Quer com a excelente atriz Audrey Tautou, a mesma que fez O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, O Código Da Vinci e, mais recentemente, Coco Antes de Chanel. O filme é bem recortado nas cenas o que transmite a certeza de uma “verdadeira relação” entre a jovem artista e o médico casado. Com final surpreendente e dramático, esse filme é uma opção valiosa para quem quer assistir o amor de uma mulher chegando às raias da loucura. Ótimo! 


As Pontes de Madison com Meryl Streep retratando a vida de uma interiorana dona-de-casa-esposa-mãe dos anos 50 nos Estados Unidos. Todo o conhecimento do amor e do mundo aparece na figura de um fotógrafo da National Geographic com quem ela vive intensamente quatro dias de intensa paixão. Motivada pelo calor desse novo sentimento ela pensa em abandonar o que lhe era mais caro: a segurança do casamento de muitos anos e seus filhos, pois um amor como aquele não se pode perder. O momento de decidir qual destino traçar impõe às mulheres que assistem a seguinte questão: o que eu teria feito no lugar dela? 


Excessos de amor, paixões alucinadas e ciúmes incontroláveis são pontos altos das grandes histórias de amor. Sempre se sofreu por amor e pelo amor. Sofrimento como prova cabal do amor verdadeiro que reivindica nada mais nada menos do que...amor total. É certo que algumas vezes o que aparece como excesso de amor pode revelar alguma patologia. Nos romances, os apaixonados aparecem como loucos e desatinados. A vida real apresenta homens e mulheres sofrendo por amor até as últimas conseqüências.

28 de maio de 2010

Vestibular para Psicologia


Olá, psicóloga! 
Encontrei o seu email no blog e tenho uma dúvida que acredito ser você a pessoa mais preparada para me responder.
Concluirei o ensino médio esse ano e em agosto me inscreverei no vestibular. Fiz vários testes vocacionais, auto-questionamentos, pesquisei o que tinha que pesquisar e conhecer o que precisava conhecer. Vou fazer Psicologia. Não me imagino fazendo outra coisa. Não decidi pelo desejo de me tornar um herói dos meus clientes, coisas que muitos pensam que o psicólogo seja, mas por realização profissional e pela bela oportunidade de poder contribuir positivamente na vida das pessoas, o que acredito não ter preço. Ainda que exija muito estudo, dedicação e enfrentamento de obstáculos como saturação do mercado de trabalho, concorrência e tempo para consolidação da profissão, a única coisa que ainda me faz pensar duas vezes é se vale a pena ser psicólogo pelo resto da vida.


Essa é a minha dúvida: não chega o tempo em que o profissional de Psicologia cansa de tantos problemas? Não chega uma hora em que ele se arrepende de ter cursado Psicologia? Por que a Psicologia é uma profissão que vale a pena ser exercida pelo resto da vida?


Preciso dessa informação, pois você deve fazer idéia de como é a pressão para escolher a carreira a ser prestada no vestibular. Se possível, responda essa questão pra mim. É muito importante, pode crer.


Obrigado pela atenção. Sucesso, paz e bênçãos!
E.O. (Futuro estudante da UFBA)


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Olá, futuro psicólogo!
É muito bom saber que um jovem do ensino médio se preocupa com a questão da escolha profissional. O curso de Psicologia é intenso e um longo caminho você terá pela frente. Como você mesmo diz o psicólogo não é o herói de ninguém. Seu trabalho não é o de salvar vidas. Os progressos na psicoterapia são devidos ao paciente que tem total liberdade de iniciar e abandonar o tratamento a qualquer momento e o psicólogo sempre respeitará a decisão. Vaidade e frustração são questões que acompanham o profissional e devem ser trabalhadas. A função, na verdade, é a de tentar equacionar a questão subjetiva de quem fala, sendo fiel à linha teórica escolhida sob o rigor de uma ética.


Não se preocupe com o mercado de trabalho. A saturação existe em todas as profissões. Para quem trabalha com dedicação e compromisso o mercado abre oportunidades. Costumo dizer que para um bom profissional, o mercado é bom. Para um ótimo profissional, o mercado é melhor ainda. Seja dedicado e perseverante na profissão que escolher. A escolha deve ser aquela do seu desejo. Isso é o que importa.


A Psicologia não está restrita à clínica. Ela atua em diferentes segmentos, como RH, aviação, pesquisa de mercado, publicidade, esporte. Essa última tem aparecido com muita força. (Times de futebol, vôlei e atletas independentes enfrentaram e conseguiram superar momentos de dificuldades com a inclusão da psicoterapia.)


O que dirá à você se uma profissão “vale a pena” de ser exercida  pelo resto da vida será o compromisso com a verdade e a paixão que você dedicar à ela. Qualquer profissão exigirá bastante e se você estiver correspondendo é sinal de que “vale a pena”. 


Indico algumas obras valiosas que certamente irão lhe ajudar neste momento e a maioria das universidades as utilizam. A primeira é História da Psicologia Moderna (Cultrix) que trata das diferentes abordagens e linhas de pensamento desde o século XVII. A outra é Teorias da Personalidade que reúne teóricos representantes de diversos enfoques contemporâneos. E para o estudante de Psicologia aprender a definição do que é a ciência, seu objeto de estudo e finalidade recomendo Sistemas e Teorias em Psicologia (Cultrix) que suscita questionamentos e indica leituras ao final de cada capítulo. Importante livro para a formação do psicólogo. 


Se a psicanálise for o foco de sua atenção recomendo que assista o filme Freud Além da Alma, que retrata o início da vida profissional de Freud e as primeiras postulações do que mais tarde se tornaria a Psicanálise. Excelente.


Interrogar-se sobre qual caminho seguir é importante e necessário na hora de decidir. Faço votos de que a sua escolha profissional seja aquela que responda as suas motivações conscientes e (porque não dizer?) inconscientes.


Um grande abraço e boa sorte.

13 de abril de 2010

Engolindo sapo


Um dos problemas mais comuns para quem tem maus hábitos está no fato de, na maioria das vezes, não saber como aquele tipo de comportamento se originou. Algumas vezes ao desenvolver um padrão, na verdade se age por conseqüência do meio em que se vive, um reflexo do comportamento predominante do ambiente, como um contágio. E deve-se estar atento à isso.

Mantenho determinados hábitos diários e procuro otimizar minhas tarefas para que meu tempo seja melhor aproveitado em coisas que realmente aprecio… Portanto vou aos mesmos lugares e isso inclui o supermercado em que faço minhas compras. Confesso que essa é uma daquelas tarefas que preferia não fazer, mas como não tenho alternativa, vou a uma loja silenciosa onde o ar condicionado funciona bem e, principalmente, sem aquelas pessoas gritando no microfone as últimas promoções. Mas um detalhe sempre me intrigou. A maioria dos funcionários tem o semblante sério, aquele jeito de “poucos amigos” e sempre havia um reclamando do salário, da carga horária, do chefe da seção ou de alguma doença e isso infelizmente chegava aos meus ouvidos. Um dia não me contive e perguntei: “Porque os funcionários daqui reclamam tanto?” Temerosa da reação da funcionária me surpreendi quando ouvi a resposta, em tom arrastado, acompanhada de um sorriso forçado. “Porque aqui o cliente tem sempre razão. O funcionário não vale nada. A gente engole sapo de todo o mundo.”

“O cliente tem sempre razão” adquire um tom de verdade absoluta que atrapalha o sono de muita gente. Caixas, vendedores, comissárias de bordo, operadores de telemarketing, segmentos que trabalham diretamente com o público ou ambientes corporativos onde se disputam o quinhão de um mercado altamente competitivo, se vêem as voltas com um intenso e desumano desgaste psicológico e físico. Empregos altamente estressantes e, muitos deles, mal remunerados frequentemente deixam o funcionário com sentimento de desamparo e vulnerável à todo tipo de enfermidades. Trabalhos onde se tem de engolir sapos o dia inteiro elevam o nível de absenteísmo decorrente da insatisfação profissional, da desvalorização pessoal e promovem o surgimento de doenças reduzindo drasticamente o índice de produtividade.

Tudo o que ameaça a vida gera um estresse positivo e por conseqüência uma resposta adaptativa com taquicardia, concentração aguçada e estado de alerta sem que isso seja considerado maléfico para o indivíduo em um primeiro momento. No entanto, se o agente estressante permanece atuando, o corpo entra em um estágio de esgotamento a estímulos permanentes e excessivos. Trocando em miúdos, o que isso quer dizer? Que muitas doenças são decorrentes de estresse e tensão do ambiente de trabalho gerando queda de cabelo, falhas de memória, insônia, gastrite, artrose, hipertensão, problemas no coração, na tireóide, além de fobias, depressão e quadros de pânico. Fases que requerem ajuda psicológica. Do ponto de vista científico quando o estresse chega à etapa de quase exaustão o sujeito encontra-se em seu momento crítico, pois é a fase clínica, quando o tratamento inevitavelmente se faz necessário.

Os fatores psicológicos geradores de estresse devem ser considerados pelas empresas em seus programas de treinamento. Novos procedimentos devem ser adotados para lidar com o estresse gerado por clientes nervosos e, principalmente, promover um clima favorável e de confiança no meio de trabalho.

Paradoxalmente o desemprego é um dos fatores mais estressantes ao mesmo tempo em que pessoas empregadas agüentam muita coisa por medo de perder o emprego.

E se no seu local de trabalho o chefe não está nem aí e você não encontra uma solução no momento? O mais seguro é que sejam desenvolvidos recursos internos para lidar com um ambiente difícil, conflituoso e estressante ao mesmo tempo em que procura outra colocação no mercado de trabalho. Difícil? Pode ser. Mas a busca de alternativas além de criar estímulo para suportar a situação irá favorecer um novo horizonte e, sobretudo, é a melhor saída para que o brejo seja definitivamente desocupado.

27 de março de 2010

Todos os filhos de Nardoni e Jatobá


O assassinato de Isabela Nardoni envolve uma série de particularidades processuais que fez despertar uma tendência na população. Todos parecem ter a capacidade de julgamento. Em meio à manifestações populares com desejo de punição uma me chamou atenção e fez renascer uma esperança no meio de uma sociedade que julga parecendo querer mais sangue. Dizia: “Isabela deve ser justiçada e não vingada.” Isso me fez crer que algum lado sensato e ponderado ainda resistia na história da vida. Definitivamente culpados, o que é justo agora se fará cumprir.

Se tivessem sido inocentados Alexandre Nardoni e Ana Jatobá arrastariam sua “sentença de liberdade” para outras vítimas, os 2 filhos menores do casal.
Considerando que um filho tem sempre a melhor impressão dos próprios pais, os filhos do casal carregariam a marca social de serem filhos dos assassinos de sua própria irmã. Marca indelével que permanecerá não apenas neles, mas em todos nós. A criança empalidece perante a vida, pois vive em permanente estado de alerta sentindo-se ameaçada por tudo que a cerca. Todos nós sentimos essa coisa. 

Segundo o Laboratório de Estudos da Criança da Universidade de São Paulo, 100 CRIANÇAS MORREM POR DIA no Brasil vítimas de abuso sexual e psicólogico, negligência e violência física e em 70% dos casos os agressores são os pais biológicos.

Tende-se a afirmar que os pais amam seus filhos da mesma maneira e na mesma proporção. Isso é um grande mito. Existem sentimentos profundamente enraizados contrários ao que se supõe ou afirma. Um pai que mata um dos filhos e “preserva” os outros revela de forma clara e brutal que faz “diferenças” entre eles. Ama-se um mais do que outro e um sentimento de culpa é despertado no filho amado sobrevivente. Os ciúmes entre irmãos é a expressão da rivalidade no amor. É natural e necessário na construção da subjetividade. Porém nesse caso ele é atravessado por um elemento novo. A punição pelo desejo de amar e ser amado. Na verdade o desejo de aniquilar o outro sempre existiu no inconsciente. “Não aguento mais. Quero que você morra!” Frases populares como essas fazem parte do cotidiano entre pais, filhos e irmãos. São frases comuns. Mas a passagem ao ato é de outra ordem.

Com a facilidade, rapidez e detalhamento dos fatos pelos canais de informação milhões de crianças e jovens se confrontam com a dura realidade que Isabela viveu e que todos vivemos. Que um pai pode matar. A condenação nos livrou deles. Temos a impressão de que estamos seguros, porém milhares de crianças morrem todos os anos vítimas de pais, mães, padrastos, madrastas, tios, vizinhos. João, Pedro, Maria, Anônimo. A justiça se cumpre pela pressão social, mas ninguém venceu. Isabela perdeu a vida e vamos ficar aqui sustentando a angústia de que  perdemos a nossa um pouco também.

23 de março de 2010

Tenho 15 anos e me odeio


“Oi, tudo bem? Tenho 15 anos de idade e tenho tido muitas brigas com meu pai. Depois das brigas sinto vontade de chorar até morrer. Ele sabe que eu sempre ajo dessa forma e parece que não se preocupa com o que eu faço. Ele diz que me ama, mas sei que sou um peso na vida dele. Minha mãe tenta me convencer de que ele me ama só que eu não acredito. Não agüento mais morar com eles. Meu pai não se importa quando dou os meus “ataques” dentro de casa. Há pouco tempo pintei a metade do cabelo de rosa. Minha mãe disse que ficou “uma gracinha”... Meu pai disse que eu deveria colocar uma placa na testa escrito “sou ridícula”. Já até cortei meus braços e pernas com gilete e com a ponta da tesoura. Estou me sentindo muito infeliz e ainda tenho as cicatrizes dos cortes que me lembram o quanto sofri e ainda sofro. Vou morar com meus pais até 18 anos, mas às vezes acho que não vou agüentar até lá. Fico o tempo todo sozinha no meu quarto ouvindo musica... O que que eu faço da minha vida?”

Ao contrário do que parece, a adolescência não é um período fácil da vida. É necessário que a infância seja deixada para trás para que um período repleto de mudanças possa iniciar. O próprio corpo, os interesses, as motivações. Tudo muda. Além do impulso rumo ao amadurecimento e à novas expectativas, há também a insegurança de sair da condição de criança dependente para criar uma identidade. Portanto, muito se perde para a conquista da maturidade e de um lugar no mundo. E cada vez que se perde alguma coisa na vida é necessário viver um luto, que corresponde ao entendimento e aceitação da perda. Em primeiro lugar, luto pelo corpo infantil que sofre mudanças, sensações e causa estranheza. Depois deve ser vivido o luto de um comportamento primário que agora exige outro tipo de atitude frente ao grupo de amigos. E todo esse confronto não acontece de uma hora para outra. O adolescente se apresenta com uma variedade de comportamentos instáveis e, muitas vezes, contraditórios.

Outro fator de extrema importância nesse período é o correto entendimento de que os pais também enfrentam dificuldades para aceitar o novo período na vida do filho e a nova imagem que acompanha o adolescente. Uma nova pessoa que desperta para a sexualidade. Muitas vezes isso tudo provoca uma grande revolução na família pela falta de aceitação dos pais em perceber as mudanças físicas e de comportamento. Os filhos agora possuem opinião e lutam por fixar sua nova identidade. Os pais também devem iniciar um processo de luto. Para eles, desprender-se do corpo infantil do filho e aceitar o fato de que a vida puxa o jovem para a entrada no mundo adulto representa a evolução de suas próprias vidas. É o reconhecimento da proximidade da velhice e da morte. Muitas brigas em casa acontecem pela falta de aceitação dos pais em entender o processo de amadurecimento e independência dos filhos.

O seu email, minha querida jovem, é o grito de socorro de alguem que sente-se sozinha e não sabe o que fazer para suportar as exigências e as mudanças internas e externas que a vida tem lhe imposto. Seus pais não conseguem perceber o que vem acontecendo à você. Pelo que você relata parece que eles têm dificuldade em ver que o tempo está passando e você cresceu.

Você deve buscar uma psicoterapia. Se eles não derem importância ao seu pedido procure uma solução no seu colégio. Fale com a coordenadora pedagógica ou com a psicóloga, se houver, e solicite um encaminhamento para o profissional que o colégio indicar. Isso terá que ser feito com a autorização de seus pais, portanto peça ao colégio que os convoquem para uma conversa a seu respeito.

Isolar-se no quarto, fugir do mundo exterior procurando refúgio na fantasia e esperar completar 18 anos de idade para ir embora de casa, não lhe dá a garantia de felicidade e tranqüilidade futuras. Aceite o fato de que seus “ataques” não encontram resposta e caem no vazio. Portanto, não são a melhor saída. Você tem uma necessidade desesperada em ser reconhecida, possuir uma identidade e ser amada. Seus pais possuem grandes ansiedades e medos que os impedem de perceber o que vem acontecendo. Mas você também deve fazer a sua parte e ter atitudes coerentes com a sua idade.
Espero ter lhe ajudado.

15 de março de 2010

Traída


“Tenho 42 anos, duas filhas do primeiro casamento e sou independente financeiramente. Acho que sou boa na cama, gosto de me arrumar e de cuidar de mim. Em 2006 conheci um cara pela internet e nos apaixonamos. Em 2008 comprei uma casa e resolvemos morar juntos apesar de minhas filhas nunca terem aprovado. Ele havia sido casado 2 vezes. A segunda ex mulher faleceu e a filha deles de 9 anos veio morar conosco. Com a minha permissão, claro. Antes disso, o filho dele do 1º casamento já morava conosco. Agora estou atravessando uma barra. Em agosto do ano passado ele me emprestou o celular e descobri a mensagem de uma fulana tratando-o de amor. Descobri que ela é casada e saía com ele de vez em quando para o motel. Ele sempre negou... E ainda tenta dizer que eu preciso me tratar porque é TPM. Ele nunca dormiu fora de casa. Descobri que eles se encontravam no início da manhã, na hora do almoço ou no meio da tarde. Sabe o que eu não entendo? Todos os dias fazemos amor e ele diz que nunca ninguém fez como eu, que me ama...Quero saber qual a necessidade desse homem em ter outra mulher se todos os dias fazemos amor, fazemos de tudo na cama, tudo o que queremos, sem pudor, sem reserva. Não consigo entender. Agora descobri que ele tem uma rede social de mulheres na internet. A maioria casada ou com algum compromisso. Ele é doente? Não consigo entender como uma pessoa à noite faz amor e na manhã do dia seguinte está à caça de uma mulher qualquer, chamando-a para ir ao motel. Gostaria de entender essa situação. Estou muito magoada.”

Homens e mulheres amam de formas diferentes e isso não constitui uma novidade. No entanto, as variantes e os modos de amar muitas vezes são motivo de conflito entre os casais. Pertencer à uma ‘rede de mulheres’ talvez determine o que é ser homem para alguns. E a angustiante necessidade que ele possui se alimenta de mais angústia, pois exige muita cautela em não ser descoberto. Talvez o fato de se relacionar, mesmo que virtualmente, com várias mulheres revele o temor à impotência em um sentido mais amplo além do sexual, e também uma fragilidade e sentimento de desvalorização que o acompanha desde sempre. Suposições em torno de uma questão que pertence à ele. Afinal ele possui profundos motivos inconscientes para agir assim. Mas o que será que move você à determinadas escolhas? Você faz tudo pela relação. Compra uma casa e resolve morar com ele apesar da desaprovação de suas filhas. Não tenha tanta certeza quanto ao suposto controle que você tem da situação, desafiando opiniões ou dando ‘permissão’ para que a filha dele, menor de idade e em desamparo, tenha ido morar com vocês. Se você não tivesse permitido, como teria ficado a relação?

Pode ser que você esteja certa e que ele a venha traindo há algum tempo. Mas pode ser que você também esteja certa e que ele não tenha nada com ninguém além de você. Explico. No seu email você repete a palavra ‘descobri’ algumas vezes. E convenhamos que só descobre quem anda procurando. E o que você vem buscando faz parte de uma fantasia de traição.

Faça um exame em sua vida e em vez de tentar ‘descobrir’ o que ele vem fazendo, procure entender o que influencia você à determinadas escolhas que a fazem agir de forma tão insegura. As relações amorosas na vida adulta se baseiam nas situações primitivas entre pais, irmãos, irmãs e todos os sentimentos e emoções que envolvem essas experiências. As relações adultas contêm, além de reminiscências da experiência infantil, elementos mais recentes de outras relações amorosas. A medida que você entrar em contato com essas informações e descobrir outro lado em você, começará a entender suas reais necessidades e expectativas dentro da relação atual.

8 de março de 2010

Sexo entre amigos


Existe um ditado que diz “amigos, amigos. Negócios à parte”. O que significa dizer que os empreendimentos relacionados ao trabalho devem ser realizados com alguém que não seja do círculo de amigos. Supondo que o negócio não alcance sucesso e em caso de desavença com o sócio, não se corre o risco, portanto, de perder um amigo. Riscos somente nos negócios, não na amizade.

Há pouco tempo li em uma revista americana uma pesquisa revelando que atualmente as pessoas estão preferindo ter relações sexuais com um amigo em vez de manterem uma relação fixa com determinado parceiro, como um namoro, por exemplo. A maior parte alega não ter tempo para se dedicar à um compromisso, ter passado por um trauma, uma infidelidade, não querer abrir mão da liberdade e muitas outras justificativas foram dadas para o “sexo amigo”.

Em geral o sexo entre amigos possui um acordo, verbal ou não, autorizando ambos a se encontrarem para fazer sexo ocasionalmente sem, no entanto, estarem buscando um namoro ou algum outro tipo de envolvimento amoroso com aquele determinado parceiro. Mas quais são os prós e contras da relação sexual com um amigo?

A pesquisa mostra que o primeiro ponto favorável é o de fazer sexo com alguém que se confia, de uma forma descomplicada, sem precisar passar por todas as pressões e limitações quando se conhece outra pessoa até conseguir chegar à cama. Esse tipo de relação acomoda o entendimento e a honestidade de que ambos estão ali para a mesma finalidade. Ninguém irá causar no outro a sensação de estar sendo usado, pois ambos têm o mesmo objetivo excluindo a carga sentimental de outro tipo de relação. A relação entre amigos dificilmente evolui para algo diferente como um namoro ou algum tipo de compromisso mais sério. Na verdade uma relação como essa tende a esfriar quando um dos parceiros começa um namoro ou se interessa por alguém “de fora”. Outra grande conveniência observada por aqueles que mantêm esse tipo de relação é a facilidade para se encontrarem. Ninguém precisa ir para a balada, fazer uma super produção, flertar, conversar e, principalmente, se arriscar com alguém que acabou de conhecer.

Muitos afirmam que uma das vantagens da relação é a discrição. Ninguém sabe de nada, além dos dois. Sem alardes públicos.

A ansiedade na performance, que geralmente acontece entre parceiros que acabam de se conhecer, não existe. Ambos sabem o que irão encontrar e o que irá acontecer. Se o sexo tiver sido ruim para um dos dois não será necessário dar grandes explicações, desculpas ou fugir de uma quantidade interminável de telefonemas que o outro irá dar.
Caso a relação não tenha acontecido como o esperado, não tem problema. Afinal, para isso é que os amigos servem. Sem dramas...

O interesse em um envolvimento mais “aprofundado” pode condenar a relação, revelando maior interesse de uma das partes. Quando um dos dois quer romance e o outro não tem esse objetivo, existe a possibilidade de alguém sair machucado, sentindo-se usado ou enganado. Começar a sair com outra pessoa de forma mais freqüente pode vir a despertar ciúmes e modificar a relação “amistosa”.

É difícil separar a emoção do sexo e para ter uma relação assim é necessário muita coragem e desprendimento. Sentir ciúmes ou adotar uma postura possessiva, além de ser injusto com o outro, revela uma incapacidade para esse estilo de encontro. Portanto, não tente em prol da amizade.

Fortes vínculos religiosos, familiares, sociais ou o desejo em ter um relacionamento exclusivamente sexual com um amigo para se vingar de alguém, pode destruir uma grande amizade. Ultrapassada a linha da amizade para o envolvimento sexual, a relação nunca mais será a mesma. Portanto se a outra pessoa é um amigo muito valorizado ou de infância, não se arrisque indo para a cama. É claro que é mais fácil falar do que fazer. Portanto, previna-se. No calor das sensações, não há volta. Uma relação assim exige maturidade. Se você sabe o que quer e vai em frente, sabe o que tudo isso irá representar no dia seguinte. E esse é o risco para quem segue adiante.

3 de março de 2010

O espetáculo do eu


A intimidade está à vista de todos: do Orkut aos reality shows, do You Tube aos fotologs, e é cada vez mais habitual que pessoas do mundo inteiro exponham sua vida privada por meio de fotografias, relatos e vídeos. Qual o sentido destas práticas contemporâneas?

Ao longo da última década, a internet passou a hospedar um conjunto de práticas “confessionais”. Milhões de usuários do mundo inteiro se apropriam de diversas ferramentas disponíveis on-line e as utilizam para exibir sua intimidade. Dia após dia, com a velocidade do tempo real, tanto os detalhes mais saborosos como os mais inócuos de sua vida são expostos nas telas interconectadas da rede global de computadores. Assim, os assuntos mais íntimos de qualquer um se derramam em blogs e fotologs, por meio de webcams sempre ligadas ou em sites como YouTube, Orkut, MySpace, Twitter e Facebook.

Trata-se de um verdadeiro festival da vida privada: imagens e relatos que se oferecem sem pudor algum diante dos olhares sedentos de todos aqueles que desejarem dar “uma olhada”. A tendência é bem atual e, de fato, excede as margens da web para inundar todos os meios de comunicação. Basta pensar no sucesso dos reality shows e dos programas de TV que ventilam toda sorte de dramas pessoais, ou no sucesso de vendas das revistas de celebridades e mesmo das biografias, tanto no mercado editorial como no cinema.

Por que tudo isto, que parece tão fútil, é digno de atenção? O fato é que essa súbita insistência em exibir retalhos de intimidades próprias e alheias é inédita: nestas novas práticas, o espaço público e a esfera privada se misturam de uma forma jamais vista. Cabe lembrar que, até pouco tempo atrás, esses dois âmbitos da existência eram opostos e irreconciliáveis, considerados mutuamente excludentes. Mas agora vemos como as telas eletrônicas revelam, sem recato algum, todos os detalhes de qualquer vida. E não se trata apenas de um intenso desejo de se mostrar; há também cada vez mais pessoas dispostas a consumir avidamente esses relatos, fotografias e vídeos.
No entanto, parece haver uma contradição neste fenômeno. Como é possível que os novos diários íntimos – pois é assim que são definidos habitualmente os blogs, por exemplo – se exponham diante dos milhões de olhos que têm acesso à internet? Seria essa exibição pública da intimidade um detalhe sem importância, que não altera a essência do velho diário íntimo em sua atualização cibernética? Ou se trata de algo radicalmente novo?

A rigor, todo esse murmúrio de confidências que emana dessas palavras e imagens parece ser mais “éxtimo” do que íntimo, para recorrer a um neologismo que procura dar conta da novidade. Porque embora existam muitas semelhanças entre os blogs atuais e os diários tradicionais – aqueles que proliferaram nos séculos XIX e XX –, também são enormes as diferenças entre os dois gêneros autobiográficos. Aqueles caderninhos rascunhados no silêncio e na solidão dos ambientes privados de antigamente, muitas vezes sob a luz das velas e envolvidos no mais respeitável dos segredos, tinham uma missão: resguardar todas as dobras daquela sensibilidade típica da modernidade industrial. Eram ferramentas que serviam para que esses sujeitos históricos tentassem se compreender: ajudavam-nos a criar seu próprio eu no papel. Já os blogs, os fotologs e as webcams de hoje, bem como certos usos do YouTube, do Orkut ou do Facebook respondem a outros estímulos e têm metas bastante diversas. Expressam características subjetivas bem atuais e servem a propósitos igualmente contemporâneos. Mas quais seriam essas peculiaridades e esses objetivos específicos? Trata-se de uma pergunta que vale a pena formular, porque a busca de respostas também pode nos orientar rumo à compreensão dos sentidos desses novos hábitos.

PARA SER ALGUÉM
Os antigos diários íntimos eram, para seus autores, cartas remetidas a si próprios. Eram textos extremamente privados, introspectivos e secretos, pois permitiam mergulhar na própria interioridade. Possibilitavam um afundamento em toda a riqueza e na misteriosa densidade da vida interior de cada um, a fim de decifrar tudo aquilo que se hospedava em suas recônditas profundezas. Já os novos diários éxtimos da internet são verdadeiras cartas abertas. Por isso, parece evidente que tanto seus propósitos como seus sentidos são outros. A própria definição muda, pois em vez de apontar para “dentro” de cada um, os novos meios de expressão e comunicação se voltam para “fora”, buscando conquistar a visibilidade e a celebridade.

Para ler na íntegra http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/o_espetaculo_do_eu.html

18 de fevereiro de 2010

A família dela é um inferno


“Tenho 40 anos, fui casado durante 10 anos e estou em processo de separação. Tenho uma filha de 6 anos. Estou namorando há alguns meses uma mulher maravilhosa de 29 anos e estou apaixonado. Porém ela teve uma experiência traumática com um homem na mesma situação em que me encontro, ou seja, em vias de separação. No final ele terminou com ela e voltou para a mulher. O nosso namoro é maravilhoso, passamos muito tempo juntos e fazemos planos. Depois que conheci a família dela nossa relação virou um inferno. Eles começaram a encher a cabeça dela dizendo que a estou usando, que vou abandoná-la e voltar para minha ex. Dizem que vou magoá-la da mesma maneira como o seu último namorado. Sei que ela me ama e ela sabe que não volto para minha ex. Meu receio é que ela seja influenciada pela família a ponto de me largar. O que faço?”

Você ainda não separou definitivamente da mãe de sua filha e isso pode estar causando uma insegurança geral, inclusive em você. Será que o namoro é tão sólido assim para todo esse planejamento futuro ou é uma paixão entre pessoas que acabaram de sair de relações traumáticas? Você está começando uma nova fase da vida. Ainda nem fez o luto de uma relação que durou 10 anos e já entra com tudo em outra experiência. Vamos ser realistas. Entendo quando você diz que a família dela está transformando sua vida em um inferno. Mas tudo acontece com a autorização de sua namorada que, como mulher adulta, teria condições de decidir a própria vida. Interessante o fato dela se envolver com o mesmo padrão masculino, recém separado. Será que, no fundo, ela quer que essa relação dê certo? Formar um vínculo requer maturidade e ela tem os próprios motivos inconscientes para repetir a escolha. E você? Será que quer um compromisso no momento? Afinal você ainda é casado e deve resolver suas questões com tranqüilidade. Uma de cada vez. Talvez você não queira sentir-se sozinho por um tempo e o fato de ter outra mulher depois de 10 anos de casamento esteja deixando-o confuso. Mesmo tendo a certeza de que não irá voltar para a ex, esse processo de luto exige elaboração e, de preferência, sozinho. Viva um momento de cada vez na sua vida. Ultrapassado o processo de separação você irá adquirir experiência para agir de forma mais sensata e fazer escolhas com maturidade.

12 de fevereiro de 2010

Amigos imaginários




Para quem acredita que os filhos pequenos conversam com “espíritos” e para aqueles que não sabem que esse recurso alivia o sofrimento de muitos.

Uma em cada três crianças nutre temporariamente uma relação existente apenas na fantasia – o que não é motivo para preocupação. O curioso é que também adolescentes e adultos, em especial idosos, usam esse recurso para superar fases difíceis

Vivemos tempos em que conversar com gente que nunca vemos não é nada incomum: perambulamos por chats, blogs e twitter e trocamos informações e segredos com pessoas com quem mantemos relacionamentos virtuais, às vezes bastante íntimos. Mas e quando uma criança “cria” um amigo imaginário – brinca, fala e até mora com ele, como se fosse real? Esse fenômeno, que surge principalmente entre 3 e 7 anos, não é tão raro. Quando pais e educadores percebem a existência desses companheiros invisíveis quase sempre ficam preocupados. Uma mãe escreve em um fórum on-line: “Nosso filho de 5 anos tem falado há três dias de ‘sua amiga Pia’. Ela só existe em sua imaginação, mas parece ser absolutamente real para ele. Ele se comporta como se pudesse vê-la! Nós não tivemos esse tipo de experiência com sua irmã três anos mais velha. A amizade com ‘Pia’ parece fazer bem ao nosso filho, mas nós nos preocupamos mesmo assim. Será que devemos deixá-lo com sua fantasia ou tentar convencê-lo a abandoná-la?”.

Mas os pais podem respirar aliviados, pois todos os estudos sobre esse fenômeno chegam ao mesmo resultado: não há motivo para preocupações! Os amiguinhos imaginários têm sido estudados de forma intensiva há muito tempo, nos últimos 100 anos, mas poucos psicólogos se dedicaram a esse tema. E há um ponto em comum: todos concordam que os amigos imaginários estimulam o desenvolvimento das crianças, podem suprir eventuais lacunas afetivas e ajudam na elaboração de questões psíquicas.

Para os mais novos, o amigo “de mentirinha” é quase sempre um companheiro de brincadeiras que pode estar “presente” também à mesa na hora das refeições, ser chamado pelo nome, mas não raramente acompanha a criança durante todo o dia. Alguns pesquisadores afirmam que praticamente todos nós temos um parceiro imaginário em um determinado estágio do desenvolvimento – porém, ele quase nunca é descoberto pelos adultos e a própria pessoa normalmente não se lembra disso mais tarde.

Os acompanhantes invisíveis são frequentemente crianças da mesma idade de seus criadores – como, por exemplo, Sebastian Nigge, o amigo imaginário de Madita, personagem do livro de mesmo nome, de Astrid Lindgren. Podem ser também animais, magos ou super-heróis. Alguns cabem no bolso e podem ser levados para todo lugar – como o canguru invisível Pantouffle no filme de Hollywood, Chocolate, de 2000, dirigido por Lasse Hallström.

Revista Mente e Cérebro
edição 205 - Fevereiro 2010

Para ler a matéria na íntegra:





27 de janeiro de 2010

Cada um em seu lugar



Um filho possui diferentes significados que variam de casal para casal e dentro da relação cada um possui uma forma diferente de amar.
Na vida de um homem, a paternidade tem um lugar bastante privilegiado devendo ser acolhida principalmente quando são encontradas algumas dificuldades em demonstrar amor.

O homem sente, em sua origem instintual, uma enorme satisfação em dar um bebê à mulher realizando um desejo primitivo e fazendo-a feliz. Ele (co) participa diretamente da gestação assim como na criação dos filhos. Muitos homens orgulham-se muito em dizer “estamos grávidos”.  Um bom pai, o que não precisa ser algo tão excepcional ou surpreendente assim, encontra satisfação na medida em que começa a descobrir profundos sentimentos protetores e inicia o exercício de sua paternidade com as lembranças de sua própria infância, na relação com seu próprio pai ou possuindo um ideal de pai criado em sua imaginação.

Para homens e mulheres, o significado de um filho supõe trazer uma renovação de sua própria infância e juventude na medida em que todos os momentos de desenvolvimento do filho abrem espaço para que o adulto se expresse revelando sua própria experiência de forma sutil.

Um ponto interessante é o vínculo criado a partir das dificuldades que o filho apresenta onde, então, a relação leva ambos à uma forte identificação, favorecendo o desenvolvimento tanto do filho quanto do pai. Toda mulher gosta de ver um homem expressar seus aspectos infantis junto às crianças!

A mãe exerce um papel fundamental e o pai possui uma importante função de complementariedade única e insubstituível. Os papéis familiares devem ser fortalecidos e nunca modificados. A instituição familiar tem trilhado um percurso bastante difícil onde o lugar de cada um muitas vezes está desocupado ou, o que é pior,  parece não estar corretamente preenchido por seu integrante, desobrigando cada um de suas responsabilidades e imputando culpa ao outro.

Quando a vida está alicerçada no amor e na compreensão as relações se fortalecem, homens e mulheres aprendem a dividir o melhor de si e ainda aprendem com seus filhos.



25 de janeiro de 2010

Ele é meu



“O ser humano é muito difícil de ser entendido. Diz que ama, mas trai ou mata. Põe um filho no mundo, mas se arrepende e abandona. Prejudica a natureza, mas não vive sem ela. Agora eu pergunto à você: amo o meu marido, mas desconfio dele. Ele não comemora datas importantes junto à família dele por minha causa. Não falo com a tia dele. Ano passado ele brigou com o irmão e eu quase briguei também. Graças à Deus eles voltaram à se falar e a paz reina entre todos da família. Mas, segundo meu marido, não teria clima se eu estivesse junto à família dele. Sei que sou muito ciumenta, chata, intrigueira. Acho que sou uma boa dona de casa, mas sei que isso não é tudo. Às vezes tenho vontade de falar com a mulher do meu cunhado, mas me falta coragem para escutar a verdade. Gostaria muito da sua ajuda.”

Sua vida parece misturada com a de seu marido. Você não sabe mais quais são as suas próprias questões e quais são as dele. Não há separação. Porque você acha que deve se envolver nas brigas dele com a família? Em todo casal deve existir uma linha invisível separando a vida de cada um. Viver junto significa viver com alguém que se ama, respeita e permite ser amado apesar das diferenças.

Conviver com as diferenças é dominar a arte do bem viver. Exige prática diária e, como todo aprendizado, requer tempo e paciência.

Você diz que não fala com algumas pessoas da família dele. Entre vocês dois a comunicação também parece comprometida. Subjacente ao diálogo existe desconfiança. A briga é a dificuldade de um diálogo maduro quando as opiniões divergem, impossibilitando a convivência de uma forma harmoniosa e partindo-se, então, para a agressão verbal.

Você sabe o que acontece com você e o que poderia ter feito para que as brigas não acontecessem. Porém ter consciência disso não basta para que você mude. Algo inconsciente a impulsiona e você age dessa maneira. Ser boa “dona” de casa não quer dizer ser dona de tudo, incluindo o marido. Ele é uma pessoa, você outra. Porque você cria condições para afastá-lo dos parentes e quer manter o relacionamento assim, sem dividi-lo com o resto do mundo?

O impulso agressivo sempre retorna mesmo sabendo que poderia ter agido de uma forma apaziguadora no calor das emoções. Claro que é possível recomeçar, mas você deve procurar saber porque age sempre da mesma forma.



21 de janeiro de 2010

Transexualidade




“Sou transexual e tenho muita dificuldade em me aceitar. Aproveito para te perguntar o que faz um ser humano ser transexual? Nasce assim ou são os acontecimentos da infância que mudam o destino? Todo transexual tem algum problema físico ou mental que faz com que tenha vontade de ser do sexo oposto? Não consigo entender os estudos que dizem que é opção de vida. Queria ser homem, mas não consigo. Algo mais forte me leva a pensar como uma menina, a sonhar com os meninos, a me vestir como uma moça. Não é safadeza, mas gosto de estar vestida e produzida como uma mulher. Passar batom é uma coisa fantástica, um sentimento maravilhoso. Receber uma cantada de um homem, mesmo que pela internet, fico com meu coração tremendo de felicidade. Tenho todos ou quase todos os sentimentos femininos e não consigo entender o porque. Nunca tive coragem de me abrir com as pessoas.”

Você parece viver sob a pressão de um problema de identidade. Quem eu sou?
A distinção entre sexo e gênero envolve um grupo de determinantes físicos e psíquicos. Sexo tem a ver com prazer e função sexual. Gênero diz respeito à diferença entre masculino/feminino e precede o sexo. Possuir um corpo de homem ou um corpo de mulher nada significa no domínio dos impulsos sexuais. Uma identidade sexual permite à pessoa poder passar por toda a vida, da infância à velhice, por mudanças sem, no entanto, perder a capacidade de permanecer a mesma pessoa.

As experiências no período da infância estruturam a pessoa. Aos registros do primeiro período da vida quando se inscrevem imagens, experiências e recordações podem ser acrescentados resquícios das relações com os pais e pessoas do seu meio. No transexual, além dessas mudanças e informações, inclui-se a transição de um sexo para outro, algumas vezes afetando a identidade pessoal como você afirma no início do email.

O transexual não possui um problema físico ou mental. Ele possui uma realidade psíquica assim como os homossexuais e heterossexuais também possuem. Cada um à sua maneira. Existe uma distinção entre o sentido de identidade sexual e o sentido de identidade separado da sexualidade.

Enfrentar o domínio do sexo anatômico e conseguir alcançar a representação psíquica da sexualidade não constitui uma tarefa fácil. Somente em análise você conseguirá entender seus processos psíquicos e o que o conduziu à essa mudança. Porém negar a própria sexualidade reforça cada vez mais a dificuldade nas relações e aumenta o preconceito.

18 de janeiro de 2010

Dúvida





“Resolvi escrever para tirar uma dúvida. Não sei se é verdade, mas a psicologia explica porque o filho mais velho sofre em certos aspectos? Será fruto da inexperiência dos pais? Tenho um irmão mais novo. Pessoas que acabam de nos conhecer tem a impressão de que sou mais novo que ele. E é exatamente o contrário. Não sei se na aparência ou no comportamento. Sou mais expansivo e ele é mais fechado. Já ouvi várias vezes coisas do tipo ‘nossa, pensei que ele fosse o mais velho e não você.’ E, de alguma forma, isso me incomoda demais. Quando era mais novo fui muito tolhido. Tudo o que eu queria fazer (de saudável, é claro) recebia um não. Não tinha apoio quando ia tomar uma decisão. O não era uma resposta certa. Fui crescendo assim. Por isso sou muito inseguro na hora de tomar decisões. Ao contrário do meu irmão mais novo.”
 

Você não informa a sua idade e a de seu irmão. Tampouco a dinâmica familiar, ou seja, se você e seu irmão são filhos dos mesmos pais. Tem outros irmãos? Os pais viviam juntos ou trocaram de parceiros quando você e seu irmão eram pequenos? Diante da escassez de informações vamos olhar somente a situação relatada.

Na infância a relação de dependência dos pais é natural e necessária. A criança deve ser introduzida ao mundo e cabe aos pais nomear tudo o que a cerca. Inicia-se, portanto, um longo aprendizado que continuará de forma independente por toda a vida. Em algum momento essa atenção exclusiva teve que ser dividida com a chegada de um irmão. Esse momento é crucial para o mais velho, pois lhe será apresentada uma nova realidade durante a gestação: “esse é o seu irmãozinho”, “ele também é seu”, “você vai cuidar dele também”. Coisas assim.

Quando nasce um irmão, toda criança sente ciúmes, o que é bastante natural e não há nada de perturbador nisso. Ela é acometida por um sentimento de perigo e, portanto, sente-se ameaçada. A criança, confusa, reage à essa realidade identificando-se com o recém chegado e regride comportando-se como um bebê com o objetivo de resgatar a atenção exclusiva que lhes era destinada anteriormente. Cabe aos pais ajudar a criança à superar esse momento de dificuldade proporcionando acolhimento e adotando uma postura compreensiva em relação ao filho mais velho. A respeito dos ciúmes, esse tipo de conflito tende a se resolver na infância. Superado isso, a criança retorna ao seu desenvolvimento pessoal.

Algumas vezes, mesmo com o passar dos anos, o filho mais velho sente-se ameaçado, tem medo de crescer. Um comportamento expansivo pode revelar um desejo inconsciente de permanecer criança e resgatar o que acredita lhe foi tirado como amor, proteção, exclusividade, impedindo-o de situar-se no presente. O ciúme é a única possibilidade de comunicação devido à falta de entendimento sobre o que, de fato, acontece com você.

Todo casal é inexperiente em relação ao primeiro filho. E em relação aos próximos também. Cada filho é de um jeito, é diferente do outro. É único.

Porque será que tudo o que você queria fazer tinha um não como resposta? Será que o seu comportamento correspondia à sua idade? Ou será que o seu ‘comportamento expansivo’ era traduzido pelos seus pais como imaturidade e lhe davam uma negativa para protegê-lo? Porque você precisava da aprovação deles para fazer algo que, de antemão, considerava ‘saudável’, mesmo sabendo que receberia um não como resposta? Responsabilizar-se pelos próprios atos inofensivos e saudáveis mesmo que venham a ser um sucesso ou um fracasso pode ser um bom começo. O filho mais velho quer a atenção que lhe é devida, quer o amor dos pais. De fato, você está no lugar de filho mais novo, porém guardar ressentimentos contra os pais ou sentir-se perturbado quando não o reconhecem como primogênito não o ajudará a lutar pelos seus direitos de viver de forma madura e responsável.



13 de janeiro de 2010

Diferenças


Em um grupo que conversava sobre viagens, perguntaram-me em qual lugar moraria caso estivesse fora do Brasil. 
- Alemanha, respondi. 
- Por quê? 
E dei minhas justificativas a respeito do que me agrada naquele país. 
Um dos presentes respondeu: 
- Não moraria lá de jeito nenhum! Terra de nazistas! - referindo-se ao maior psicopata da História da Humanidade e autor do maior genocídio de todos os tempos. Na verdade sua nacionalidade era austríaca e sabemos que um enorme contingente de seu exército era formado por alemães. Mas o povo alemão se envergonha desse momento do passado. E eu devo obviamente entender a revolta do meu interlocutor. No entanto se tomarmos o raciocínio do meu amigo como correto, poderíamos supor a inexistência de cristãos no mundo, pois a Inquisição foi outro desastroso momento de extermínio em massa executado, dessa vez, pela Igreja. 


De fato, tudo isso mostra uma total falta de informação revelando, o que na verdade importa, o que o sujeito carrega dentro de si. O preconceito. As pessoas parecem contaminadas por esse mal e nem sabem o porquê. São vítimas de uma cilada massificadora? Talvez. 


Parece não existir nada plausível que justifique esses pensamentos ou ações e infelizmente esses grupos ainda podem ser encontrados em qualquer lugar, aqui ou lá. E matam pelo mesmo impulso. Da mesma maneira que se matam índios, mendigos, homossexuais, crianças ou espancam-se domésticas negras ou brancas. Há pouco tempo também são alvo de ódio coletivo os muçulmanos, evangélicos, chineses e outros tantos grupos. 


O preconceito existe por conta do desejo de aniquilar o outro. 


Uma vez atendi um jovem adolescente, classe média/alta que afirmava não gostar e, segundo ele, ter “até uma certa implicância”, como ele mesmo disse, em relação à um novo colega de classe que era negro. Perguntei: “Mas o que ele fez à você?” Ele me respondeu: “Nada. Puxei ao meu pai. Não gosto de judeu e negro.” Podemos afirmar então que o preconceito, a nível consciente, é injustificável. É um germe que parece ainda sobreviver pelo desejo do sujeito em ser contaminado. Aparece como algo mortífero. Socialmente hereditário. 


O preconceito é um grande impedimento das relações em todo o mundo. Tanto para o sujeito preconceituoso quanto para a vítima do preconceito. Cristaliza o sujeito, impedindo-o de desenvolver sua criatividade, limita seu raciocínio, suas ações, destrói a espécie. Portanto é a maior prova do quanto o ser humano é capaz de maltratar o outro. Piegas?? Pode até parecer. Mas MUITO verdadeiro. 




Existe uma frase popular que diz: “O homem é o único animal que destrói o seu semelhante.” Simples e verdadeiro. Esse sintoma aparece na atualidade como um traço de caráter revelando um sujeito autocentrado, narcísico, acreditando ser melhor do que o outro. Que consegue formar um grupo de muitos amigos. Todos virtuais, pois a cada vez que precisa conviver com a diferença terá que colocar à mostra as raízes de sua imperfeição e limitações. Como diria o meu conhecido, “terra de nazistas”. Sim, é verdade. Toda violência, pensada dessa forma, é nazista em qualquer lugar, pois sugere a intolerância à diferença em doses letais. Se o outro é melhor ou pior, não é disso que se trata. Mas o ódio ao outro revela o que de fato não suportamos dentro de nós mesmos. “Ele tem o que eu não tenho” ou “ele tem algo que era suposto ser exclusivo meu”. Essa presença intolerável já havia sido escrita por Freud em 1929 em Narcisismo das Pequenas Diferenças e confirma-se ao longo da História da Humanidade. Ainda nos dias de hoje grupos se reúnem para canalizar a violência contra o corpo do outro de forma predatória revelando a pobreza que não suportam em si mesmos.